A adesão da Turquia à União Europeia é um assunto que me deixou (ou deixa) hesitante e sem opinião definida durante anos. Tenho dificuldade em optar definitivamente por qualquer das duas alternativas em jogo. Creio que os argumentos são fortes nos dois sentidos.
No sentido de aceitar a adesão e por ordem de importância:
a) Argumentos políticos : seria um sinal para o mundo islâmico moderado de que existe um caminho diferente a seguir : concluir-se-ia que a democracia e o estado laico também servem o mundo muçulmano. Para eles (os moderados) a Turquia, em caso de adesão, seria um farol de liberdade. Os radicais do Islão perderiam força. A não adesão da Turquia poderia conduzir ao declínio da laicização e da tendência para a democratização do regime e favoreceria alianças com os regimes radicais do Médio Oriente e de todo o mundo muçulmano;
b) Argumentos geo-estratégicos : as fronteiras da União Europeia ficariam mais próximas das rotas dos gasodutos e dos oleodutos que constituem as fontes primordiais de energia de que a Europa é tão carecida. Por outro lado, a Turquia que já faz parte da Nato, tornaria mais firmes as alianças com o mundo ocidental e, sobretudo, com a União Europeia e seria a guarda avançada do ocidente naquela região do mundo;
c) Argumentos demográficos : a Turquia com cerca de setenta milhões de habitantes, com uma população muito jovem, traria sangue novo à União Europeia que tem uma população envelhecida;
d) Argumentos geográficos : a Turquia tem um pezinho no continente europeu;
e) Argumento histórico e cultural : Istambul foi a capital do Império Romano do Oriente e o território da Turquia fez em maior ou menor medida parte desse império. Existem aí muitos vestígios culturais da época romana e mesmo grega.
No sentido contrário à adesão e pela mesma ordem :
a) Argumentos políticos : nada a objectar à bondade dos sinais que seriam dados ao mundo islâmico moderado. Mas aceitar a Turquia no clube europeu seria criar expectativas de adesão a outros vizinhos do mundo islâmico: Marrocos, Tunísia, etc. . Será isso favorável à UE ? E a UE pretende ser uma mera associação de países para fins de divulgação e implantação da democracia ? Não parece;
b) Argumentos geo-estratégicos : o ponto de vista geo-estratégico é o grande argumento a favor da adesão;
c) Argumentos demográficos : justamente porque a Turquia tem cerca de setenta milhões de habitantes ela seria, a breve prazo, o país mais populoso da União Europeia, por força da evolução e tendências demográficas contrárias às dos actuais países da UE. Tornar-se-ia um dos países que mais facilmente poderiam impor minorias de bloqueio às decisões da União Europeia. E, por outro lado, o rejuvenescimento da população da UE far-se-ia com sangue de segunda classe (desculpem a crueza mas nem é pelo sangue...);
d) Argumento geográfico : de nada vale o argumento geográfico. Mais facilmente se integraria Israel na UE;
e) Argumento histórico e cultural : é o verdadeiro argumento contra a adesão. Eis o cerne da questão.
O que têm os turcos a ver com os europeus do ponto de vista histórico, religioso e cultural ? A história da Turquia, herdeira do Império Otomano, opõe-se à história europeu. Em nada converge com ela. Até inícios do século vinte a Turquia era um império temível para a europa dos balcãs e durante séculos manteve o império austro-húngaro em respeito, tendo o conflito entre os dois impérios chegado às portas de Viena. E da parte do império otomano não era simples ambição territorial. Era uma veleidade de expansão religiosa que apenas parou porque o império austro-húngaro lhe fez frente. Essa ameaça durou até ao século XIX.
Os europeus não vêm nas religiões motivo de discórdia porque cada vez são menos religiosos. Mas essa não é a atitude dos turcos. O proselitismo muçulmano e o radicalismo religioso fanático é ainda muito forte do lado da Turquia, apesar dos sectores laicizantes e modernos de uma parte do país. Daí que a falta de ânimo para o combate religioso da parte dos europeus não facilite a pretensão turca. Apenas desarma os europeus face ao radicalismo religioso cuja crueza já ignoram.
E é a própria religião que conduziu ao afastamento cultural entre a Europa cristã e a Turquia. Apesar de ocupar a região mais helenizada da Ásia e de ter herdado parte do espólio cultural greco-romano, a Turquia apenas possui vestígios dessa presença cultural. O apelo do islão foi ao longo dos últimos séculos mais sedutor do que o humanismo e os avanços culturais dos impérios clássicos. Pode-se admitir que até ao século XIV a influência clássica sobre o islão tenha sido importante. Mas o Islão entrou em decadência desde essa época áurea até à presente data. Vive uma Idade de Trevas. Não temos muito em comum, nós europeus, com os turcos.
O que se pretenda com a construção europeia.
Penso que o balanço entre vantagens e desvantagens da adesão da Turquia à União Europeia é francamente contrária à pretensão daquele país muçulmano. Porém, o voluntarismo das elites da construção europeia fácilmente trucidaria a força dos argumentos contrários a essa adesão. Os europeus têm-se tornado pouco realistas com as facilidades das últimas décadas: o crescimento económico que se tem feito sentir desde o fim da Segunda Guerra Mundial; e o guarda-chuva americano que nos protege sem cessar e sem necessidade de esforço em investimento na nossa própria defesa. Mas o progresso económico que dava para todas as aventuras parece estar esgotado. E depender do guarda-chuva americano não tem sido mau de todo mas tira-nos, decerto, alguma influência política mundial.
Todavia, na cegueira da falta de realismo político, chegou-se a ouvir (Álvaro de Vasconcelos, Presidente do Instituto de Estudos Estratégicos Internacionais), em argumento favorável à adesão da Turquia e, posteriormente, de outros estados do Norte de África e do Médio Oriente, que a União Europeia era uma espécie de EMBRIÃO DE UM GOVERNO MUNDIAL (grandioso e patético, né ?) onde todos cabem desde que cumpram as regras da democracia e dos direitos humanos. Claro que, se é isto que queremos para a UE, então parece razoável deixar entrar a Turquia. Dizem que o autor da ideia é mero fantoche americano e que os EUA querem uma Europa que não se mova até estrebuchar de inanição. Não creio que os americanos queiram eliminar um concorrente e perder um aliado. Mas sabe-se lá.... Talvez não acreditem na possibilidade de a União Europeia ser politicamente forte. Cabe-nos aos europeus mostrar-lhes que estão enganados. Se é que o queremos.
Entre o achado do Embrião de Governo Mundial e a recusa de adesão da Turquia à UE há, porém, outros figurinos.
Poder-se-ia imaginar um quadro em que o alargamento da zona de influência europeia se ficasse apenas por este país.
E, no entanto, seria a UE, só com esse acrescento, compatível com o que pretendemos para a Europa ? Os europeístas convictos e adeptos de um estado federal forte querem que a Europa se prepare para ser uma força política e militar credível (económica ainda é) com quem os seus aliados possam contar e que tenha uma voz respeitada no mundo. Será isso irrealismo, também ? Admitamos que não é irrealismo e que esse é o objectivo dos europeístas de gema...... (continua)
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