A histeria anti-tabágica.
Gostamos tanto de ser responsáveis. Que bem que ficamos nessa fotografia. E quem se atreve a criticar-nos essa pose ? Será por tudo isto que é tão fácil ter bons sentimentos e boa consciência ? Passamos por boas pessoas com belas almas e, ainda por cima, a resistência às nossas ideias raramente nos afronta, quer porque nos sentimos acompanhados por milhões que nos acompanham na beleza do espírito (confirmando pelo número o acerto das mesmas) quer porque ninguém sente necessidade de ouvir mencionar a feiura de ideias realistas. Realista e feio não colhe.
São assim os defensores das proibições tabagistas.
A questão dos custos de saúde enche as suas lindas bocas que cândidamente proferem: «os impostos pagos pelos fumadores não chegam nem pouco mais ou menos para cobrir os custos com as doenças causadas pelo consumo do tabaco».
E se alguém põe isso em dúvida, quase o esfolam vivo: «quem põe em dúvida esse pressuposto das políticas anti-tabágicas é porque não conhece o custo astronómico desses tratamentos. Anda neste mundo por ver andsar os outros» e «vê-se que nunca teve ninguém na família com esse problema» e «se ao menos fossem responsáveis e sensíveis e próximos da tragédia como "nós", decerto andariam informados».
O "nós" é aquela multidão. Contra a multidão, os "irresponsáveis" ficam receosos: «porque estarão todos contra mim ? Que fiz eu de mal ? Não devia ter falado. Afinal não tenho informação suficiente para defender essa posição» e «ainda por cima tenho sorte. Devo ser caso único, dizem».
É mais um que se irá calar e passar para o lado do "nós", quanto mais não seja para não se denunciar na infame sorte de ser o único saudável.
Este que vos escreve já passou pela farsa descrita. E surpreendemente hoje a RTP1 abriu o Telejornal das oito da noite com um estudo sobre os custos das doenças provocadas pelo consumo do tabaco. Creio que ninguém instruiu os estudiosos para apresentarem números inflaccionados. Não são verdadeiros cientistas. Esses sempre sabem quais os números a que devem chegar para manter os "nós" correctamente instruídos e de espírito aceso e firme em prol das belas causas.
Parece que se gasta anualmente qualquer coisa como 100 e tal milhões de euros em internamentos e remédios e 300 e poucos milhões em tratamento ambulatório e mais remédios com as doenças respiratórias e as outras provocadas pelo consumo do tabaco que afectam os doentes fumadores e ex-fumadores. Os custos das doenças dos fumadores passivos não estão incluídos no estudo. (Cautela com estes números porque o Jornal da meia noite da SIC Notícias tinha outros: 144 milhões euros apenas, repartidos em 64 milhões para internamentos e remédios e 80 milhões para ambulatório e remédios, também excluindo os custos com as doenças dos fumadores passivos).
Aqui renasce o cepticismo do "irresponsável arrependido" «Agora vou poder lidar com números». Procurou uma fonte credível que lhe desse informação sobre a receita anual dos impostos sobre o tabaco em Portugal e chegou a números interessantes: a receita total foi em 2005 cerca de 1.300 milhões de euros (número a confirmar). «Se este número se confirma como vou poder calar a minha alegria : afinal os fumadores pagam as suas doenças». «Já não são um peso para sociedad. Talvez se possa duvidar da necessidade de perseguir o fumador e se possa pôr fim às leis proibitivas. Talvez...».
E, para a eventualidade de um contra-ataque puritano, o nosso "irresponsável" ainda reservou no bolso um cartucho, para atirar à cara dos "nós". Mas não resisto em denunciá-lo: a maior parte dos fumadores faz descontos para Segurança Social toda uma vida e por causa do seu vício morre cedo, muitas vezes sem chegar à idade da reforma ou pouco depois de lá ter chegado. «Merecem uma estátua estes fumadores» pensou o irresponsável. Afinal são responsáveis por que não seja tão grave o défice da Segurança Social . E "nós" sabemos disso mas mesmo assim não os deixamos em paz.
Sociedade puritana, esta. E que presume ser liberal. Porque também é belo o ideal liberal.
É de facto um pouco repugnante. As almas belas querem ser tudo quanto lhes pareça "correcto". Mesmo que entrem em contradição.
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